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Bem devagar

há 10 minutos
2 min de leitura

Hoje conheci a dona Odete. Somos vizinhas há seis anos e tudo que trocamos foram alguns boas tardes e acenos de cabeça. O que eu sabia sobre ela, ou melhor, achava que sabia, vinha do que eu inferia ao passar em frente à sua casa.


No início, achei que ela não ouvia, já que não respondia meus cumprimentos. Depois, considerei a possibilidade de uma rabugice. Finalmente, entendi que ela era simplesmente triste. Um dia desses, me pareceu doente. Estava branca feito papel.


­— Olá! — falei, com meu sorriso de meio de caminho, quando a possibilidade de rejeição me desencoraja a esticá-lo.


Ela, sentada numa cadeira encostada no portão, usando óculos escuros, levantou o queixo. “Já é alguma coisa”, pensei. Não demorou muito e vieram os “tardes” sisudos. Mal mexia a boca. Na verdade, toda ela mal se mexia. Toda vez que eu passava na rua, lá estava: mesma cadeira, mesma posição, mesmos óculos, mesma vida. Meninos e meninas entravam e saíam da casa, alguns com bolas e bonecas, os mais velhos com paqueras. Havia um contraste imenso entre a movimentação pulsante da vida no seu início e a inércia pálida de seu final.


Hoje, porém, foi diferente. Enquanto eu subia a rua, distraída com música, aproveitando o cheiro doce do ar, ela me atalhou. Pronunciou alguma coisa bem na hora em que Belchior dizia: “Mas quando você me amar...” Parei e fiz que não entendi. Ela pediu para eu chegar mais perto.


— Me ajuda a descer — cochichou.


Ofereci o braço e descemos o degrau da calçada.


— Para onde a senhora quer ir?


— Quero atravessar a rua.


Ela estava sorridente. Com seus característicos óculos escuros, boné e uma muleta cor-de-rosa. Avistei na esquina da rua debaixo senhoras reunidas com seus banquinhos dispostos embaixo de um pé de manga, que apontavam para nós. Ela tinha feito amigas.


— Quer que eu acompanhe a senhora até lá?


Ela riu e não negou. Assim, continuamos devagar.


— Qual seu nome?


— Odete. 


Vieram frases de cá, frases de lá. Calor, tarde, prosa, manga madura, a cor da muleta. Bem chegava a hora preciosa da história, da vida, das memórias, uma das netas das mulheres do grupo que a aguardava veio me render no trabalho de conduzi-la.

Ela se despediu com um olhar gentil, de agradecimento. Talvez mais que isso. Tive a impressão de flagrar uma voz naqueles olhos. Olhos de quem tem o que falar. Mas, deixe estar. É preciso tempo para sentir vontade de dividir um pouco de si. Já dizia a letra: “Me abrace bem devagar.” Acho que vale pra quase tudo.

 
 
 

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