Caça ao Tempo
Hoje vi uma lua muito bonita. De extremidades brilhantes e interior cinza, ela brilhava no centro de nuvens brancas, enquanto um aglomerado de nuvens menores se aproximava, formando algo parecido com uma espiral. Quis fotografar. A partir daí, a reflexão que se seguiu tirou a paz da minha contemplação substituindo-a pela perturbação dos meus questionamentos. Fazer o quê? Eis o que sou: um ponto de interrogação com pernas.
Minto. Sou também reticências e muitos pontos finais, embora eu os odeie. A verdade é que não me bastam as perguntas. Queria eu a polidez de duvidar, presumir um mistério e então aproveitar o espaço mental para simplesmente sentir. Em vez disso, persigo as respostas. Elas é que me atraem. As perguntas são apenas o pretexto para que eu passe horas revirando um tema, avessando suas causas e consequências, me satisfazendo com seus porquês.
E, aqui, deitada na rede, sob um sublime céu, foi o que fiz. Comecei pela lamentação de não alcançar com a câmera do celular a beleza que eu via com meus olhos. Então, me perguntei por que não me bastava a visão. Por que precisava capturar a imagem? Prender o momento? Aha! Flagrei a primeira pista da minha subsequente meditação.
O que vejo, vejo agora. Consumo imediato. Findo. A foto, por outro lado, congela, segura o instante. Seguindo a ideia, chego a um velho desejo infantil: Controlar o tempo. Nesse ponto, me zango com minha ganância impossível. Por que não ambiciono dinheiro, como quase todo mundo? O papel, ou qualquer que seja seu equivalente moderno, é mais fácil que uma máquina do tempo. O primeiro, pelo menos, já foi inventado.
A verdade é que nunca consegui ser materialista. À parte das necessidades comuns, pouco me atraíam as possibilidades financeiras. Nem a mais abastada delas compraria o que quero. O que anseio é inumano, abstrato, infinito. Quero o tempo. Domá-lo. Possuí-lo. Tê-lo obediente, disponível. Pra sempre. Pra quando eu quiser.
Por enquanto, porém, tenho que me contentar com dois bons pares de olhos, uma mente inquieta, um céu agora estrelado e o único controle de tempo que me cabe: Trocar as pilhas do relógio de parede.
Que linda reflexão…