Livros
Há duas coisas que me chamam especialmente a atenção num livro. Uma delas é a dedicatória, quando se trata de um livro presente. Como sempre visito sebos, tenho o prazer fofoqueiro de ter vários exemplares cheios de declarações alheias de amizade e amor. Gosto de imaginar como eram essas pessoas. Reparo no traço, na direção da letra. Tenho pra mim que as escritas deitadas e de pernas de letras puxadas são de gente intensa, que se apaixona com a sinuosidade de um S e a brevidade de um I.
Sempre me pergunto por que alguém doaria ou venderia um presente aparentemente tão cheio de sentimento. Fins? Fim de relacionamento, de espaço, de vida? Nem todo mundo gosta de suvenires. Eu, por outro lado, guardo até pedra que ganho; que dirá um livro! Acho-os inestimáveis, sublimes, superiores ao rótulo de presente e a quem o deu. Vão-se os amores, ficam os livros: Parece-me uma filosofia muito melhor.
A segunda coisa que atiça minha curiosidade é a epígrafe. Esse recorte cuidadosamente escolhido para ocupar com poucas linhas uma página inteira. Se o livro mostra o que o autor escreve, a epígrafe mostra o que ele lê. Confesso que é nessa parte que começo a formular uma opinião sobre a leitura, que poderá ser, em parte, corrompida pela afinidade entre nossos gostos literários. De fato, ler a epígrafe me traz uma sensação de café coado, umas três da tarde, autor e eu conversando sobre nossos títulos preferidos.
Passadas essas folhas fundamentais, reconheço em todo o resto um efeito humanizador. Ler me faz sentir vontade de querer bem as pessoas. Dobra meu coração feito um barco de papel: lúdico, despretensioso, frágil. Ler maleia, tira a rigidez dos conceitos e sentimentos. Depois de um livro, meus gatos são mais bonitos, o mundo cheira melhor e eu sorrio. Mesmo se tratando, às vezes, de um teor existencialista (o que mais gosto) ou até pessimista, sorrio por me sentir racional e viva. Deve ser o tal do penso, logo existo. E não conheço ferramenta mais eficiente para provocar o pensamento do que um livro.
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