Velhas Fotografias
Essa noite, tomei vitamina de banana. A sensação que tive não foi do sabor da fruta ou da textura da bebida. Antes, o gole foi o folhear de um álbum antigo. O retrato do momento em que meu pai chegava do trabalho, tarde da noite, e me pedia para preparar um lanche leve. Entre seus preferidos: vitamina de banana.
A lembrança me alegrou a cara e doeu o peito. Assim é a saudade e, acho, também o amor. Enquanto bebia, reparei no céu, pela janela da cozinha. Estava tempestuoso, escuro, cinza chumbo. Dessa vez, fui levada à cena em que me escondia debaixo da mesa, esperando ele passar pela porta e adivinhar onde eu estava. Ele ria e fingia procurar.
Com pouco, acabou a luz. Agora, já sentada à mesa da sala, olhando através da porta aberta que dá para o quintal, mudei minha opinião sobre o céu. Se antes o tinha descrito como escuro, agora era a sua claridade que me fazia enxergar qualquer coisa dentro de casa. É curioso como nossa percepção de realidade é afetada pelo referencial oposto. Pode ser que a nostalgia não signifique necessariamente um passado glorioso, talvez só estejamos distantes, opostos demais a ele.
Continuei minhas divagações enquanto me servia de uma fatia de pizza. Em volta, não havia qualquer som além da chuva mansa e meus pensamentos. Outra vez: fim de ano. Eu, travessa, assistindo aos filmes que passavam após a meia noite. Ouvia, animada, o portão abrir. Meu pai chegava carregando uma enorme caixa. O que eu mais gostava eram os chocolates. Comia um bocado ali, fora de controle e de horário, sob os resmungos da minha mãe e a despreocupação do meu pai.
Troveja e a bateria do computador ameaça acabar. Deixo pela metade o copo, a pizza e o texto. Quem sabe a única coisa que eu conclua hoje seja a visita às minhas velhas fotografias.
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