Versos bobos
Esses dias, lembrei de uma tarefa escolar de quando estava na quarta série, e da bronca que levei da professora quando lhe entreguei: “Era para inventar um poema.” “Eu inventei, professora.” “Não, você copiou isso de algum lugar. Deve ser alguma música.” “Não copiei!” “Vá sentar.”
Sentei-me. Pensei desaforos. Olhei meu texto. Sete linhas rimadas que tinham saído da minha cabeça. Por que ela não acreditava? Aos poucos, a zanga foi dando lugar a um certo gosto, um quase orgulho de alguém ter insinuado que o que escrevi poderia ser uma música, ou que era inacreditável para uma criança daquela idade. Voltei para casa feliz, com minha folha de caderno rejeitada entre os livros. Vira e mexe eu a desdobrava e lia, com a sensação de um elogio.
Colocando o sentimento por extenso, acho graça daquele orgulho imaturo. Principalmente porque recitando o poema (que tenho intocado na memória), vejo como é ínfimo. Já o era naquela época, o que me deixa surpresa pela reação da professora. Que referências culturais horríveis devia ter aquela mulher, coitada.
Mas, senão para nota, de uma coisa serviram esses versos bobos: saber que a escrita sempre teve importância para mim. Entre textos que gosto de reler e textos que gosto de incinerar, o ato de escrever é necessário, legítimo, soberano. Se não escrevo, desapareço, morro. Torno-me outra, que não eu.
“Andando na rua, queria dizer...” Não, melhor deixar para lá. Ou ainda, melhor deixar lá, na lembrança, como uma foto antiga de uma escrita pueril, de short-saia azul, tênis encardido e cara de bico. Agora, adulta, viva, às vezes prosa, às vezes rima, de vez em quando boba, que ninguém é de ferro, mas sempre, sempre inventada.
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