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Atestado de humanidade

  • 8 de abr.
  • 8 min de leitura


Enquanto empilhava algumas sobras de madeira, o velho marceneiro olhou com curiosidade para seu ajudante. “É calado demais”, reparou. Será a reação a uma ideia séria, que exija concentração ou o reflexo do mais absoluto nada? Contratei um filósofo ou um asno?”


 — Está certo?


O ajudante girou entre os dedos a pequena peça de madeira que lapidava e a colocou sobre a mesa. O velho, interrompendo o pensamento indagador, limpou a serragem das mãos no avental e analisou a pecinha.


— Ah, é mais um pedaço pra sua coleção? – o ajudante fez que sim – Então por que me pergunta se está certo? Você é quem sabe.


— O senhor me olhou por tanto tempo, que achei que tinha visto algo errado.


O velho, que não tinha medo de enfrentamentos, nem era dado a muitas delicadezas, confessou:


— Eu me perguntava se você era cabeça oca.


Novamente, fez-se silêncio. O velho marceneiro, cabreiro com o que passava na cabeça de seu funcionário, resolveu pressioná-lo com um olhar insistente.


— E? — “mordeu a isca”, pensou o velho, satisfeito.


—  E o que?


—  A que conclusão o senhor chegou sobre mim?


—  Nenhuma, ainda.


—  E nem vai. Se todo o meu trabalho aqui não respondeu essa pergunta para o senhor, nada conseguirá.


—  Está se referindo aos elogios do cliente de hoje de manhã? Ah. — O velho sorriu e o movimento fez cair na boca um pouco da serragem presa no bigode. Depois de cuspir próximo ao lixo, continuou — você aprendeu o trabalho. Mas isso não responde o que quero. Ser um marceneiro inteligente é uma coisa, ser marceneiro e inteligente é outra. Você sabe aproveitar material, quase não comete erros... É um marceneiro inteligente. Mas não estou curioso pelo seu trabalho, que eu vejo, supervisiono, mas pelo que há atrás desse silêncio. Outro dia, dona Zélia, da loja de cima, fez piada, dizendo que as máquinas daqui eram vivas e trabalhavam sozinhas, por que é tudo o que se ouve daqui o dia todo.


—  Tudo isso por que eu sou quieto? Cada pessoa tem seu jeito.


—   Não ligo para o silêncio. Mas quero saber o motivo dele.


—  E que importância isso tem? O senhor me contratou para ser ajudante de marcenaria. Se o trabalho está bem feito, que diferença faz o que eu penso?



O velho marceneiro sorriu. Deu tapinhas nas costas do ajudante com a animação de quem parabeniza por uma grande conquista.


— Eu sabia, meu rapaz! Eu sabia que eu não tinha errado em contratá-lo. Veja, há uma diferença que separa os homens dos meninos em se tratando de rebater ideias. Uns respondem com afirmações, dizendo para o outro que tal coisa é assim e assado. Mas os melhores, os grandes pensadores, respondem com perguntas. — Enxotou o cachorro dum banco sujo, sentou-se, e mostrou a cadeira a frente para o rapaz — Quando conversamos, podemos nos acrescentar ideias, dúvidas, ou quem sabe, até descobrir algo revolucionário.


O jovem respirou fundo. Tomou sua decisão depois de constatar no relógio da parede que ainda faltavam duas horas para o fim do expediente. Tendo entregado a última encomenda da semana naquela manhã, só lhe restava passar a tarde ou discutindo com Agenor, ou ouvindo-o. A primeira opção seria estressante e cansativa. A segunda seria só cansativa. Às vezes, ganhar é apenas perder menos.


— Tudo bem. Estamos conversando agora. Do que o senhor quer falar?


— Do seu silêncio.


— O senhor encucou mesmo com isso, hein. — Esfregou o rosto, num gesto de cansaço.

O barulho de passos na escada levou a dupla a olhar para quem adentrava a marcenaria. Na cabeça de Luís, o alívio pela interrupção e a torcida por ser um cliente, na de Agenor, a irritação das visitas inoportunas. Dona Zélia apareceu cantarolando um oi. Quando avistou os homens, sorriu:


— Ah! Estão aí. A gente lá em cima achou que vocês tinham fechado mais cedo. Quando vim ver, ouvi vozes, pensei até que o senhor tinha contratado outro ajudante.


O velho riu e olhou para Luís, que agora se arrependia da felicidade de a pouco, percebendo que dona Zélia seria mais uma a lhe infernizar a tarde.


— Dona Zélia, a senhora que é uma mulher vivida, experiente, trabalha com gente o tempo todo — a mulher de mais ou menos 60 anos, corrigiu a postura e passou a mão nos cabelos diante da descrição — diga uma coisa. Saber fazer bem um trabalho basta para que uma pessoa seja tida como inteligente?


Ela pensou, olhou de um para o outro, procurando uma dica do que deveria responder. Olhou de novo para o velho, se perguntando se seria alguma pegadinha.


— Ah, acho que sim.

Dessa vez, o ajudante riu satisfeito. E aproveitou:


— E se de duas vendedoras da sua loja, uma vende mais, faz as contas certas, organiza melhor a loja, qual das duas é a mais inteligente?


— A que faz tudo melhor.


— Mas e se ela fosse calada e a outra se comunicasse mais, qual das duas seria mais inteligente?


— Ué... A que faz melhor as coisas.


— Errado – Interrompeu Agenor – Uma é competente e a outra é inteligente. Uma domina a prática e a outra o conhecimento. Mas, veja só, não existe inteligência sem domínio do conhecimento. Só depois que ele chega, é questionado, analisado, é que, então, produz o que chamamos de inteligência.


Dona Zélia logo notou que não estavam interessados em sua opinião, mas sim em ganhar a discussão entre eles. Por um pouco, concentrou-se em ler algo no celular.


— Não acha que é arrogante pensar assim? — desafiou o ajudante.


 — Ah, garoto...


 — Então o senhor desconsidera a teoria das inteligências múltiplas?


Agenor e Luís olharam espantados para dona Zélia.


 — Como é?


 — Responda, Agenor, já que você é tão sabido.


 — Desculpa dona Zélia, mas jamais imaginei que a senhora saberia algo sobre isso.


 — E por que? — dona Zélia encarou Luís, com jeito de ofendida.


— É que a senhora é tão — decidiu não terminar a frase, mas dona Zélia não deixou escapar seu olhar de condescendência.


 — Olhe aqui, meu rapaz, sou simples mesmo, mas eu entendo das coisas! – disse, já se levantando.


 — Tudo bem, Zélia, não precisa se zangar. Só explica de onde você tirou esse negócio de teoria.


— Daqui. — Mostrou o celular.


— Deixa eu adivinhar, você pesquisou isso agora e nem sabe o que realmente significa, não é? — zombou Agenor, soltando uma gargalhada.


— Ah, quer saber? Tenho mais o que fazer.


Dona Zélia subiu as escadas, batendo os pés e praguejando.

Enquanto Agenor bufava e gesticulava desaforadamente na direção dela, Luís foi até a estante que ficava no depósito. Quando voltou, colocou um dicionário à frente do marceneiro e indicou a página.


 — Leia.


 — Olha os modos, Luís.


 —. Até hoje, entendi que aqui é lugar de me manter quieto e concentrado no meu ofício. Mas, já que o senhor pediu com tanta insistência que eu entrasse nessa discussão, vou atender. Mas não como o senhor acha que deve ser. Afinal, se eu penso, analiso e decido, mas, na hora de agir, tem de ser segundo o seu conceito, de que vale todo o processo de inteligência? — Agenor o observava em silêncio. — Então, não são falta de modos, são os meus modos. Agora leia.


Agenor, a contragosto, repetiu em voz alta a definição apontada.


 — Viu? Inteligência não é uma capacidade única. Envolve compreender e se adaptar. E isso nem sempre acontece de um jeito sistemático, formal. Veja a dona Zélia, por exemplo. Num momento, ela chegou querendo conversar, num outro, ela decidiu sair. Como chegou à mudança? Ela compreendeu e se adaptou.


 — Dona Zélia é melindrosa.


 — E quanto ao Cabral, lá da padaria? Hoje ele trouxe o pão e ficou uns cinco minutos batendo à porta.


 — O que tem o maluquinho do Cabral? Eu estava fazendo a barba, não podia abrir e você estava serrando a cadeira. Eu disse para ele deixar na porta e eu pegaria depois.


 — Ele sempre traz o pão quentinho. Se ele fechar a sacola, o calor abafado faz surgir umidade e o pão fica murcho. Para evitar que mosquitos assentem ou bichos comam o pão enquanto a sacola fica aberta, no pé da porta, ele entrega em mãos. E sabe o mais bonito dessa inteligência dele? É a conclusão gentil e bondosa de que devemos ter o alimento nas melhores condições, mesmo que signifique esperar e insistir.


— Obrigado. — Agenor levantou-se, estendeu a mão para Luís, que a apertou, confuso com o gesto.


O Marceneiro colocou o dicionário embaixo do braço, se dirigiu às escadas, apagou as luzes e foi para casa, deixando o ajudante no escuro. Ao passar por dentro da loja de Zélia, viu apenas as funcionárias que guardavam as mercadorias.


No dia seguinte, Luís encontrou outro ajudante trabalhando em seu lugar. Ao questionar Agenor, recebeu a resposta:


 — Está demitido. Tem umas ferramentas que são suas lá naquela prateleira. O novo ajudante precisa do espaço para guardar as coisas dele.


— O que? Por que?


— Não preciso mais de você aqui.


Luís o encarou por algum tempo. A fileira de insultos se acumulava na ponta da língua. Ele respirou fundo, decidindo que bater boca não valeria a pena. Dez minutos depois, Luís subia as escadas, com seus materiais.


— Ei! Onde acha que vai com essas coisas?


— São as minhas ferramentas! Ou agora deu pra roubar as coisas dos ajudantes?


 — Calma — Agenor riu, levantando as mãos — Sei que são suas. Mas não é para levar embora, é para colocar nessa sala aqui.


 — Na sua sala?


 — Na sua sala.


 — Não entendi.


 — Você está demitido da função de ajudante de marcenaria e está contratado como o marceneiro principal.


 — Mas o marceneiro principal é você.


 — Era. Vou tirar umas férias prolongadas. Até ontem, nunca tinha encontrado alguém que eu considerasse inteligente o suficiente para confiar minha oficina.


Luís colocou a caixa em cima da mesa.


 — Por que não falou logo? Por que fez eu acreditar que estava sem emprego?


 — Algo sempre parece maior quando colocado próximo ao seu oposto.


 — O senhor é doido.


 — Dizem que é um efeito colateral da inteligência.


 — Então, toda aquela conversa ontem foi só um teste? No fundo o senhor concorda comigo?


 — Não exatamente. A parte do Cabral me surpreendeu. Também deveria ter tido mais jeito ao falar com a Zélia. Somos vizinhos de loja faz anos. Ela é uma excelente pessoa. Mas o que me fez reconhecer o erro foi o GPS.


 Luís fez cara de que não entendeu.


 — Fiquei todo o caminho de volta pensando na nossa tarde. Quando reparei, tinha entrado na rua errada da casa da cliente, onde fiquei de avaliar uma mesa. Daí o GPS recalculou a rota. Então eu pensei: Se, depois de um erro, um sistema consegue refazer o caminho, encontrar melhores alternativas, eu devo, no mínimo, ser capaz do mesmo. Suas palavras fizeram sentido pra mim. Então, por que rejeitá-las?


 — O senhor tem mesmo uma briga com essa coisa de inteligência humana e inteligência de máquina, não é?


 — A consciência e o raciocínio, garoto, – deu dois tapinhas no ombro de Luís – são o atestado de nossa humanidade.


Ao passar pela confecção, dona Zélia atalhou sua saída:


 — Então quer dizer que sou uma excelente pessoa, é?


 — Tirando a mania de ouvir as conversas alheias...


 — Você não tem jeito mesmo! — Cruzou os braços, zangada.


 — É brincadeira, Zélia.  — Riu o marceneiro — vou ficar fora uns dias. A gente se vê depois.


 — Ei! Antes de viajar, traga suas calças para eu dar bainha.

 

 

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