Não vá me fazer vergonha
- 8 de jun. de 2025
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Atualizado: há 5 dias
Quando eu era pequena, minha mãe me ensinou que quando visitássemos alguém eu não deveria me queixar de fome, nem aceitar comida ou qualquer outra coisa que o anfitrião oferecesse. “Não vá me fazer vergonha!” – Dizia ela. “Fulano oferece por educação. A gente vai visitar, mas não vai dar trabalho.”
É claro que havia exceções. Quando éramos convidadas para um almoço ou um jantar, por exemplo, o objetivo do evento era a refeição, logo, comer era permitido. Ainda assim, jamais deveria ser a primeira a me servir. “Tá morta de fome, menina? Deixa os outros irem na frente.”
A cada visita, eu ficava atenta às circunstâncias da situação para decidir se eu tiraria a xícara da bandeja a minha frente ou enfiaria a mão no cesto de pães. “Pode pegar!” – a dona da casa avisava. Então eu intensificava minha análise: Que tipo de sorriso acompanhava a permissão? Quanto tempo demorou para que o lanche fosse servido? Foi improvisado ou seu preparo fazia parte da intenção do anfitrião desde o início? Nossa visita foi surpresa?
Com o tempo, o comportamento se incorporou aos meus tratos sociais de forma que eu o repetia não mais baseada no medo das represálias da minha mãe quando chegássemos em casa, mas por hábito. Cada vez, desvendava mais rápido as motivações. Ler sinais nas pessoas passou a ser quase automático até em outros momentos.
A verdade que descobri, não debatendo o certo ou errado na pedagogia de minha mãe, é que muitas gentilezas são feitas unicamente em nome da educação. É como um acordo simbólico de boas relações que todo mundo no fundo conhecia, mas ninguém tinha assinado.
Da mesma família da frase “Vai agora não, tá cedo”, o “aceita?” seguido de um quitute estendido na direção da visita, frequentemente, nada mais é do que uma repetição proforma. Assim como os “tudo bens” nos cumprimentos, que tanto nas perguntas como nas respostas não tinham nenhum compromisso com a sinceridade. No mesmo rol: os risos que respondiam alguma piada ruim, os “sinto muito” nos funerais...
Não é o tipo de teatro que me agrada. Mas, desempenho meu papel assim que reconheço no meu interlocutor os sinais do personagem “cortês por educação”. Ele educadamente oferece, eu educadamente recuso. Pães, carona, companhia, afeto, tempo.
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