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Uma Conversa no Ônibus

Há uma classe de pessoas de que gosto especialmente. Não são necessariamente as pessoas boas, muito menos as más. (Na verdade, essa questão de bem e mal não é o mais importante aqui. Tento não ser juiz de ninguém.) Quem me encanta são as pessoas que me dão vontade de escrever. Gente conhecida e desconhecida que quando passa por minha vida, seja qual for sua demora, deixa uma impressão que considero importante o suficiente para ser documentada.

Hoje tive um encontro assim. No ônibus lotado, tentei me acomodar no espaço entre a cadeira especial e a grade. Aproveitando cada freada – já que, segurando na grade, só dispunha de uma mão para mexer na bolsa – comecei a me preparar pra ouvir música: Achar o fone, o celular, o vídeo com a sequencia preferida, ajeitar o celular com a tela pra cima, com o cuidado de que nada encoste nela, já que não poderia travá-la (não pago aplicativo de música. Uso o YouTube – uma de minhas muquiranices). Respirei fundo, sentindo o alívio mental que vem do grito gutural, embalado pela bateria soando nos meus ouvidos. E então, um cutucão no meu braço. Olhei pra baixo e era o senhor sentado na cadeira especial. Tirei um dos fones e me inclinei pra ouvi-lo:

 — Quer sentar, moça? — olhei aquela figura de coluna curvada, cabelos brancos e me comovi com a gentileza da pergunta. Neguei, agradeci, sorri e recoloquei o fone. Meia música depois, ele chamou minha atenção novamente. Dessa vez, guardei o equipamento.

 — É bom pra você ser jovem?

 — Às vezes é... – Respondi, rindo por educação, mas insegura com o caminho daquela pergunta.

 — É bom ser velho, mas não muito.

Geralmente, pessoas me assustam. Mas também me causam curiosidade. Nesse caso, a última venceu.

 — O senhor tem experiência.

 — É, essa parte é boa. Eu sei muita coisa da vida. – em seguida ele contou sobre a família, o presente que daria pros netos e que estava a caminho da roça pra resolver um problema de gados fugidos. Fiquei surpresa de saber que, naquela idade, ele ainda trabalhava. Depois, veio o conselho:

— Viva o suficiente pra saber das coisas. Conhecer a vida. Depois é hora de morrer.

Refleti no contexto da frase. Busquei uma motivação depressiva ou de vida sofrida. Mas não era melancolia. O velhinho parecia apenas honesto. Não falou com amargura, ou dor, mas como quem fala de uma constatação corriqueira. Se até então eu me sentira roubada de minha música, agora já aceitava a troca de atividade com interesse equivalente.

 — E com que idade o senhor acha que é a hora de morrer?

— Assim, como a minha tá bom. (suponho que ele considerava a aparência suficiente como resposta)

— Então o senhor não acha que tem mais coisas pra viver?

— Não é nem isso. É que só presta viver com independência. Quando começa a depender muito de filho, parente ou até de gente estranha, é hora de ir.

— Entendo a ideia. Também acho a liberdade e a autonomia muito importantes.

— Pois viva, mas não muito...

Fomos interrompidos por um grito da cobradora, avisando a chegada do ponto para algum passageiro do fundo. A hora de descer se aproximava para nós também. Era um trecho curto para uma conversa longa. Profundidade e brevidade não combinam. Quanto mais longe se mergulha (no mar, num assunto ou em alguém) de mais tempo se precisa. Apesar da rapidez

daquele diálogo, sua lembrança ecoou na minha mente todo o dia. Sabendo que dificilmente encontraria de novo aquele senhor, apliquei à lembrança da nossa conversa o conservante que melhor conheço: escrevi.

  

 

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